Recreios Silenciosos
Por Lais / Equipe em 30 março 2011 - Comportamento
Lembro até hoje do som ensurdecedor dos recreios de minha infância. Começavam com o toque alto de um alarme ou de um sino, seguido do barulho dos sapatos da criançada correndo para o pátio. Era o momento de colocar nosso corpo em movimento. Correr, pular amarelinha, jogar bola ou bambolê.
Parece que hoje, pelos relatos que tenho ouvido de profissionais que trabalham em escolas, os recreios têm sido mais silenciosos do que em outros tempos, já que as crianças ficam conectadas aos seus aparelhos de celular, enviando e recebendo mensagens de texto, ou plugadas em seus iPods e jogos do Nintendo DS. Fato que nos silencia também.
O que fazer? Muitas escolas têm tomado decisões na linha da proibição. Proíbem de passar pelo portão esses apetrechos tecnológicos, que fazem parte da vida e rotina das crianças contemporâneas. Será essa a solução?
Essa não é a única polêmica atual sobre recreios. No mês passado, por exemplo, o jornal O Estado de S. Paulo publicou matéria sobre escolas que passam atividades direcionadas em recreios e ouviu muitos especialistas que se dividiam em duas opiniões distintas. Tinham aqueles que acreditam que os recreios dirigidos são uma solução para os recreios silenciosos, pois com atividades propostas direcionadas amplia-se o repertório de brincadeiras de crianças que crescem hoje confinadas em espaços fechados e cercadas de eletrônicos, não sabendo mais brincar. Já outros, como Adriana Friedmann, do Movimento Aliança pela Infância, defendem que as crianças possam se expressar através da linguagem natural delas, que é o brincar, e têm certeza de que os pequenos saberão como se entreter sozinhos e criar brincadeiras bem imaginativas.
Segunda-feira, 28 de março, a Folha de S. Paulo publicou matéria similar, que trazia o conceito de ‘infância indoor’ para descrever essa geração confinada das grandes cidades, que parece precisar da mediação do educador para brincar.
Pois é... Parece que na atual sociedade de consumo temos convidado nossas crianças a crescer antes do tempo lotando suas agendas com atividades extras, seus armários com coisas supérfluas e seus recreios com atividades quase pedagógicas. Recreios devem ser barulhentos, pois eles são um momento, dentro das escolas, quando as crianças podem ser livres para se relacionar e se socializar dentro da rotina tão marcada e repleta de atividades que preenche o dia a dia das crianças hoje.
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Comentários
Abraços da
Bia Bedran 21 85081104
Embora não goste de proibições definitivas, talvez a desconexão no momento de escola não seja algo ruim. Por que precisamos estar conectados o tempo todo? Por que não podemos, simplesmente, estar ali, no presente?
O que percebo é que, todos nós, somos mais ou menos como crianças diante de brinquedos novos, perante a tecnologia, e que isso, naturalmente, abre a porta para os excessos. Então, meu questionamento é: porque uma criança precisaria estar online 24 horas?
http://www.alana.org.br/_news/2009/out/ed-brincar/newsletter-outubro-2009-ed-brincar.html
Para elas, estar em frente a um Ipod ou celular é melhor do que brincar de esconde-esconde.
A partir do momento que brincadeiras de rua "saíram de moda", seja pelo perigo que são as ruas com violência ou por interferência dos meios eletrônicos, será cada mais difícil ver uma criança brincar no pátio. NO ENTANTO, se o educador a estimular, pode ser que esse comportamento possa ser condicionado, ocasionando uma maior interação entre as próprias crianças.
Sobre a proibição: é difícil manter o controle de uma turma sem uma dada repressão. Quem é da área sabe... Não podemos nos iludir também pensando que tudo é flores e que as crianças entenderão do porquê estão sendo privadas de utilizarem os seus equipamentos eletrônicos. Sendo que muitas vezes elas mal entendem do porquê de irem para a própria escola.
Trabalho na Lua Nova, escola particular em Salvador que promove debates sobre diversos temas relacionados a Infância. No próximo semestre vamos conversar com pais da escola e também realizaremos mesa-redonda, em parceria com a Livraria Cultura, sobre Infância e consumo. Gostaríamos, por favor, de indicação deste Instituto de profissionais em Salvador que tivessem interesse em discutir conosco sobre o tema e participar deste evento.
Cordialmente
Andaiá Mello